Quarta-feira, Maio 21, 2008 

Berlim (excertos) #2

Foto: Sérgio Lavos

A sub-população ajuda a justificar o ar limpo e airoso dos transportes públicos; a tradicional eficiência alemã completa a ideia. A verdade é que poderia ter corrido mal noutra cidade qualquer. Mas o modo como a urbe se organiza, de um centro verde, o Tiergarten, para a periferia cortada a meio pelo fantasma de um muro, explica a perfeição da rede de transportes. Os comboios circulam em redor deste centro, cruzando-o uma ou duas vezes apenas, e o metro atravessa diametralmente o círculo sem incomodar o descanso que a paisagem proporciona. E depois é sempre fantástico passearmos por uma cidade que faz lembrar Metropolis, de Fritz Lang, com as linhas de comboio suspensas a alguns metros das ruas, as carruagens deslizando sobre as cabeças, cortando o horizonte verde que espreita a cada esquina. Por duas ou três vezes, vêem-se edifícios ligados por corredores no ar, e parece que a realidade (mais precisamente, os arquitectos que projectaram a estrutura) imita o cinema. De qualquer modo, quem vive em Berlim nem precisa de desfrutar da eficiência da rede de transportes públicos - todas as ruas são dotadas de ciclovias; milhares de bicicletas circulam, e lá se vai a ideia de que viver numa cidade é menos saudável do que viver fora dela.

[Sérgio Lavos]

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Terça-feira, Maio 20, 2008 

Berlim (excertos) #1

Foto: Susana Viegas

Na praça Breitscheid, a primeira impressão não foi a melhor; cosmopolitismo sujo, restaurantes de fast-food a espalhar lixo em redor, bric-à-brac de lojas ao melhor estilo de praia, souvenirs e livros de saldo, turistas mais ou menos serenados à procura de um lugar melhor para visitar, freaks de garrafas de tinto na mão a atirar migalhas aos rafeiros que os acompanham, músicos mal amanhados a pedirem meças ao seu jeito desajustado. A igreja Kaiser Wilhem-Gedänichts é uma ruína cuidada no meio de escombros da pós-modernidade. O resto da igreja, o altar que as bombas pouparam, apinhado de pessoas espreitando um princípio da história; a nova igreja em frente - no fundo uma desilusão, com edifício da Bayer e centro comercial Europa à mistura, e o berço do festival de cinema, o Zoopalast, envergonhado a um canto da praça.
Naquele nódulo do tecido urbano, a cidade concentra parte do pior, deixando no entanto entrever, acomodada às linhas planas que se estendem a partir dali, a geometria clara e rigorosa que se ergueu a partir de uma ferida. Uma luminosa cicatriz no mapa da Alemanha.

[Sérgio Lavos]

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Domingo, Maio 18, 2008 

Nationalizar a indústria

Uma semana fora e o único facto político decente foi o memorável concerto dos The National a que não assisti. Rezam as crónicas que até cegos começaram a ver enquanto ouviam os rapazes tocar e o Matt Berninger gingar pelo meio do público - ouviam mesmo Berninger gingar e gritar, não exagero. Assim, falando de cor, à distância, digo apenas: desconfiem dos milagres. É o que eu faço sempre que ouço falar da IURD ou da recuperação económica do país.

[Sérgio Lavos]

 

Minguante nº 10

Da revista Minguante também saiu um novo número. Com um conto meu. Sigam este link.

[Sérgio Lavos]

 

Malagueta #9


Novo número da revista Malagueta. Aqui.

[Sérgio Lavos]

Quarta-feira, Maio 07, 2008 

The Last Shadow Puppets



The Age of the Understatement

É notório: Alex Turner e Miles Kane andaram mesmo a ouvir Scott Walker. O primeiro vídeo foi realizado por Romain Gavras.
Kiss me properly and pull me apart.

[Susana]

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Segunda-feira, Maio 05, 2008 

Um escritor promissor

Carta recebida por L. V. de Camões em 1572:

Exm.º Sr.

recebemos com mui agrado a obra que nos propôs para publicação, e a ela dedicámos atenção e tempo que julgámos ser necessário à fruição devida.
O começo de uma intensa pujança colocou-nos logo de sobreaviso. Longas horas de deleite esperavam por nós, não ouse julgar o contrário, e a perfeita singeleza daqueles primeiros versos não deixavam lugar para dúvidas. Avançámos com confiança e a cada nova estrofe o espanto e a admiração cresciam em nossos corações, tal o labor e a perícia, dignos de um Virgílio ou de um Dante, que sua excelência demonstrava; o ritmo, o labor da construção, a exaltação heróica de um povo, a intromissão da mão divina nos assuntos terrenos, o modo como intercala os mundos conhecidos e os desconhecidos, todos estes predicados nos foram entretendo em tal enlevo que nos fomos mantendo acordados, durante horas e horas de puro prazer estético.
Não chegou uma leitura apenas, confessamos; aquelas páginas, ali pousadas sobre a mesa, continuavam a clamar por nós. Depois de duas leituras, decidimos, no entanto, não ir além com a publicação. Como já deve ter percebido, não se trata daqueles casos muito comuns de recusa por falta de qualidade literária, qualidade que na sua obra é, de resto, indiscutível; mas talvez – e isto se calhar vai parecer-lhe estranho – de um excesso de qualidade; ou seja, cremos que, apesar de a temática da obra ser extremamente actual, a estrutura e a linguagem adoptadas dificultam frequentemente a compreensão da história, fazendo com que o livro não possa ser compreendido no seu todo por um público que não seja suficientemente culto e sofisticado. Talvez as gentes deste tempo não estejam preparadas para um tal avanço nas letras. Como tal, lamentamos o incómodo e agradecemos a profunda emoção provocada em nós pelas páginas por si escritas. Aconselhamos a guardar como o mais rico tesouro a obra que escreveu, para que as gerações vindouras possam descobrir tal manuscrito e assim maravilhar-se com uma relíquia perdida da literatura.

Muito respeitosamente nos assinamos,

(assinatura ilegível)

[Sérgio Lavos]

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Sexta-feira, Maio 02, 2008 

Via de sentido único

- E se não souberes ler o mapa, o que fazes?
- Podes sempre culpar os teus pais.
- Ou virar o mapa ao contrário.
- Humm...

[Sérgio Lavos]

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Maio de 08

Os tempos nunca foram tão bárbaros para a juventude inquieta a que cada geração tem direito. Faltam causas, é verdade. Sobra materialismo e mil e um gadgets para consumir. Imagine-se, os ideais até se podem comprar no e-bay, enquanto se espera que acabe de descarregar aquele álbum daquela banda que alguém ouviu e acha que daqui a seis meses vai ser ouvida por toda a gente que não está na onda.
Instantaneidade e simultaneidade. Tudo agora e várias coisas ao mesmo tempo - menos o sexo, claro, que os delírios de Zabriskie Point já foram há quarenta anos.
Por isso, a juventude de agora, que tem tudo menos carreira, casa e uma perspectiva estável de futuro, alegremente é alimentada pela teta dos pais de 75, que nada querem fazer para deixar de ser os salvadores de um país perdido no nevoeiro do fascismo.
O problema, caro Watson, é claramente este: isso tudo de que falam, precariedade, desemprego pós-licenciatura, novas oportunidades falhadas, desânimo, depressão e horror com pipocas à mistura é um eterno sonho de uma outra juventude: a dos nossos pais, que com todo o amor do mundo desejam que bem estar, paz, pão e liberdade sejam, não uma escolha dos seus filhos, mas o leite da teta que caridosamente oferecem. Não há uma única solução viável para acabar com o labirinto da falta de escolha que se apresenta a esta geração porque a vontade desapareceu há muito; os pais desta geração puxam a rédea de cada vez que ela se tenta libertar, em perpétuo movimento reaccionário. O resultado de uma revolução sem sangue é uma juventude sem pinga de sangue nas veias.
Independência ou morte? Morte a longo prazo, como o lume de uma vela a extinguir-se (enquanto se ouvem as palavras de uma rock star cantando o oposto).

[Sérgio Lavos]

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Segunda-feira, Abril 28, 2008 

Um país de sombra

Não poderia ser outra, a pergunta de Francisco José Viegas: em que merda de país é que estamos? Que país é este que vê um jornal nacional fazer capa com uma figurinha tenebrosa, Prince of Darkness de trazer por casa, Cunha Vaz de seu nome, o cromo do mês e dos meses que virão, amigo do seu amigo, no dizer do Henrique Fialho, estratega falhado e com sucesso de Menezes a Carmona, figurinha de cera que se põe em bicos de pés e que deseja ser o maior da aldeia - presumo que mandando num partido, um qualquer, e tornar-se cacique do coqueiro onde vivemos. Ah, lembrei-me: este é o país que teve como primeiro-ministro um homem que perdeu um concurso televisivo para... primeiro-ministro com um sindicalista corrupto, é o país que tem como actual primeiro-ministro um homem que durante alguns anos partilhou o prime-time televisivo com o concorrente de concurso derrotado, em tribuna de excelência para preparar o caminho. Agências de comunicação? Por Zeus, eles apenas partilham a essência do seu mister com as putas: existem porque alguém lhes paga para trabalhar. E os jornalistas? Chafurdam alegremente na lama. Parabéns a todos.

[Sérgio Lavos]

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Domingo, Abril 27, 2008 

A herança

Levaremos com setenta vezes sete anos de PS, quem quer que seja o futuro líder do PSD. E a culpa, lamentável, não será de MFL, ou PPS, ou até de PSL. A culpa é, não há outra maneira de dizê-lo, de Cavaco. Esse que numa semana assobia para o lado perante o tiranete Jardim e na seguinte afirma que as novas gerações - aquelas que sofrem na pele as consequências de dez anos de cavaquismo - não se interessam pela política, pelos políticos e pela história de Portugal. Curiosamente, a candidata Manuela Ferreira Leite, quando pertenceu ao governo liderado por Cavaco, ocupou um cargo que, ouvi dizer, tem alguma preponderância na hipotética sabedoria da juventude. Pois, parece-me que o facto de ignorância ser uma palavra que poucos jovens conseguem escrever correctamente pode ser uma consequência directa de dez anos entretidos com assuntos tão elevados como o financiamento do Ensino Superior pelo bolso dos portugueses ou os cortes nas bolsas de investigação para pós-graduados; em desprimor da simples educação das questões essenciais da vida: quem somos? De onde vimos? Quem nos governa? E será que merece governar-nos?
O despudor beatífico com que Cavaco assobia para o lado, como se tivesse vindo de um planeta distante para se tornar presidente de todos os portugueses e tivesse deparado com um mundo desconhecido e estranho aos seus hábitos, se não fosse tão repugnante, seria quase digno de um Oscar. E é esta a figura que a direita idolatra.
O problema de Salazar não foi a ditadura de 48 anos; os filhos, legítimos e bastardos, que deixou por aí, são a praga que teremos de suportar sabe-se lá até quando. Para quando a morte, definitiva, do Pai?

[Sérgio Lavos]

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Sexta-feira, Abril 25, 2008 

25 de Abril

Não me parece ser difícil chegar a uma conclusão: que mais vale viver mal em liberdade do que bem em ditadura. Bem sei que haverá quem não concorde, quem sonhe com um passado em que privilégios e direitos se confundiam, um passado longínquo no qual a manutenção de um estatuto era a única razão para a mudança. Quem suspira pelas criadinhas, o choffeur, a porta aberta e as flores no aniversário, quem lamenta o fim do pudor e o princípio de uma liberdade sexual que conquistou tudo o que havia para conquistar, quem entretém o seu tempo perdendo-se num passado de salões brilhantes e políticos que eram pais da nação, ah, todos estes que foram esmagados pela roda da História, poderia ter pena deles, porque lhes compreendo os sentimentos - a velhice é um cortejo de desilusões, medo e memórias - mas a verdade é que exulto porque são os últimos representantes de um mundo extinto. Nenhuma língua poderá descrever com precisão a sensação de viver em liberdade; esta língua que agora se aproxima apenas se pode usar porque houve uns quantos que se importaram, que recusaram a desistência, que quiseram a mudança, por boas ou más razões, as correctas. Não há derrota que se possa obter que não passe por uma vitória; reclamar contra o 25 de Abril é a principal herança da Revolução. Dizer, falar, escrever. O que somos.

[Sérgio Lavos]

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Um poema

a manhã sacode os lençóis
sobre metais distraidamente preciosos
pede ajuda ao vento
que ele te joeire o melhor trigo
comê-lo-ás saudando o sol de frente
o rosto cavado a terra benévola
desfere aí o golpe
e não fiques à espera do dilúvio
quem é que não voa
depois de triturada e chupada a medula
para o esquecimento de uma montanha?

Sérgio Pereira, in Istmos e Hordas, edições TOMAHAWK, 1997

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Quarta-feira, Abril 23, 2008 

A ressaca

Fazes-me festinhas?
Parecem os artistas suplicar a cada entrevista.
Fazes-me festinhas?
O meu romance não presta, a minha música não é de preto, não corre um pingo de originalidade nas minhas veias.
Amoleçam-me, amem-me, sou capaz de morrer dentro de pouco tempo.

[Sérgio Lavos]

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